Tamo tipo passarinhos

Atualizado: 16 de Out de 2019

Certa vez, dentro do ônibus, me sentei ao lado de uma moça que cantava baixinho. Me surpreendi. Quem se disporia a cantar, mesmo que baixinho, num aperto quente de gente como aquele? De onde viria essa coragem para bom-humor logo no transporte coletivo, que de coletivo não tem nada exceto a partilha de espaço?


Seja como for, a música tem esse poder de nos capturar de alguma forma. Pelo bom ou pelo ruim. A moça que cantava baixinho parecia mais entendida de si do que os passageiros que apenas seguiam com suas rotinas. Já comentei antes, neste artigo aqui, sobre o quanto a música contribui para construirmos novos jeitos de enxergar nossa própria história.


Este breve artigo analisa a letra de “Passarinhos”, um dueto de Emicida com Vanessa da Mata que, embora sensível, revela-se como uma crítica afiada aos rumos de nossa sociedade bem como à nossa sanidade em meio a tanto de tudo. Escute.





“Despencados de voos cansativos Complicados e pensativos Machucados após tantos crivos Blindados com nossos motivos"



Não é à toa nosso cansaço. Há uma série de acontecimentos sociais que tem nos levado isso. E em meio à cobrança por produtividade e a pressa por alcançar nossas metas e projetos, travamos nossas batalhas íntimas, lidamos com a vulnerabilidade que parece assombrar ou com a falta (toda elas) que nunca é resquício, mas é presença. E constante. Tudo isso cansa. Fora as cobranças típicas deu uns que por não se enxergarem em suas próprias vidas precisam ditar a de outros.


"Amuados, reflexivos

E dá-lhe antidepressivos”


É uma fadiga emocional que nos blinda para quem nos vê. Nossos motivos, tão nossos, tornam-se uma espécie de invólucro protetor contra a decepção, a amargura e a frustração. Sabemos que eles existem, que nos constroem e dão forma à nossa essência. Mas de alguma forma queremos nos preservar intactos. O antidepressivo, o álcool, o fumo são as químicas mais conhecidas nessa tentativa tão cansada.


“Em colapso o planeta gira, tanta mentira Aumenta a ira de quem sofre mudo”

Presenciar a injustiça é também muito aflitivo e incapacitante. Somos movidos por conexão, e ser vítima de mentira provoca sim dor emocional. É aquela que quando cresce nos faz desacreditar, temer se entregar ou desconfiar de momentos bons e de pessoas que realmente se importam. Estudos mostram que não há discrepância entre dor física e dor emocional. Para o cérebro é apenas dor. E isso é o suficiente para marcar, seja o corpo ou o espírito.

"Pense num formigueiro, vai mal quando pessoas viram coisas Cabeças viram degrau

Água em escassez bem na nossa vez Assim não resta nem as barata

Injustos fazem leis e o que resta p'ocês Escolher qual veneno te mata"


A saúde floresce em um ambiente que seja biológica, psicológica e socialmente estimulante e fonte de aprendizado. Sem recursos e investimento básico – leia-se saúde, segurança e educação; a tríade do sucesso de qualquer nação inteligente – fica difícil de enxergar nossa própria capacidade de criar. Fazer-se como protagonista da própria história não é tão fácil assim devido a uma série de fatores que influenciam na resiliência e criatividade individuais e de uma nação. Com esse trecho, Emicida comenta sobre as consequências as consequências da ação do homem sobre o meio ambiente e como nós pagamos o pato pela sua ganância.


"E no meio disso tudo 'Tamo tipo

Passarinhos soltos a voar dispostos A achar um ninho Nem que seja no peito um do outro"


Nosso adoecimento não é mero acaso. Nossa vulnerabilidade não é por sermos fracos. Somos a soma de várias histórias que vieram antes: de uma família, um bairro, uma cidade, um estado que não se percebiam tão em por falta de investimentos. Não é coisa da nossa cabeça, somos o resultado de muita negligência e ainda assim persistimos. Por que, será? O que nos move dia após dia? O amor, claro. Essa tal necessidade de pertença que nos faz sentir como passarinhos voando livres mesmo que seja apenas no coração de alguém. É o que nos resta, essa liberdade engaiolada.


Tenho outros artigos aqui:

Três principais motivos para você investir numa psicoterapia

Você não anda bem? Precisa relaxar? Precisa de uma praia!

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Fontes:

1. Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária que redefine o que é ser inteligente

2. A coragem de ser imperfeito

3. Consumo de calmantes e antidepressivos entre detentos

4. Uso de antidepressivos não segue caminhos racionais

5. Venda de antidepressivos quase dobrou no Brasil em cinco anos

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